Dakossauro
Dakosaurus maximus
"Lagarto-mordedor máximo"
Sobre esta espécie
Dakosaurus maximus foi o crocodiliformes marinho mais temível do Jurássico tardio. Pertencente à família Metriorhynchidae, distinguia-se de todos os outros membros do grupo por possuir dentes comprimidos lateralmente e serrilhados, convergentes com os de terópodes terrestres, indicando especialização em presas grandes. Sem armadura osteodermal e com membros transformados em nadadeiras e cauda bifurcada em forma de meia-lua, era totalmente adaptado à vida pelágica. Seus fósseis foram encontrados na Europa (França, Alemanha, Suíça, Polônia, Inglaterra) e na Argentina, onde o espécime D. andiniensis recebeu o apelido de 'Godzilla' pelos paleontólogos argentinos. Era o predador de topo dos mares jurássicos europeus.
Formação geológica e ambiente
Dakosaurus maximus foi encontrado principalmente no Kimmeridgiano e Titoniano europeu, especialmente nas sequências carbonáticas do Jurássico Superior da Suábia alemã (formações Nusplingen e Torleite) e das Fissuras de Solnhofen na Baviera. Na Argentina, o espécime D. andiniensis provém da Formação Vaca Muerta do Titoniano superior, uma unidade mundialmente famosa por seus depósitos de hidrocarbonetos e por preservar excepcional fauna de répteis marinhos. Esses ambientes representavam mares rasos epicontinentais com fundos carbonáticos, rica fauna de cefalópodes (ammonites), peixes e répteis marinhos.
Galeria de imagens
Reconstrução artística de Dakosaurus maximus por Nobu Tamura (2007), mostrando o corpo hidrodinâmico, nadadeiras e cauda bifurcada característicos dos metriorinquídeos.
Nobu Tamura — CC BY-SA 3.0
Ecologia e comportamento
Habitat
Dakosaurus maximus habitava os mares epicontinentais rasos do Jurássico tardio europeu, conhecidos como o Mar de Tétis e suas extensões para norte e oeste. Esses mares tinham temperaturas tropicais a subtropicais, com águas claras e ricas em vida marinha. A Europa jurássica era um arquipélago de ilhas baixas cercadas por mares rasos, e Dakosaurus navegava nessas águas abertas como predador pelágico. Evidências de distribuição paleolatitudinal indicam que a espécie preferia latitudes entre 25 e 45°N, evitando águas mais frias ao norte.
Alimentação
Dakosaurus maximus era hipercarnívoro especializado em presas grandes. Seus dentes macroziphodontes, comprimidos lateralmente e serrilhados em ambas as carenas, eram ideais para cortar carne de animais de grande porte como ichthyosauros, plesiossauros e grandes peixes. A oclusão intravante entre os dentes superiores e inferiores indica que mordia as presas e as sacudia lateralmente para cortar. O número reduzido de dentes (comparado a outros metriorinquídeos) e o crânio alto e robusto sugerem que Dakosaurus capturava presas que não podiam ser engolidas inteiras, ao contrário dos metriorinquídeos piscívoros.
Comportamento e sentidos
Como crocodiliformes totalmente adaptado ao ambiente marinho, Dakosaurus quase certamente passava toda a vida no mar aberto. A ausência de osteodermos, típica dos metriorinquídeos, indica que o isolamento térmico era provido de outras formas (possivelmente camada de gordura subcutânea). A reprodução provavelmente era ovovivípara ou vivípara, como em outros metriorinquídeos, já que saída do mar para depositar ovos seria incompatível com a morfologia das nadadeiras. Dakosaurus pode ter caçado solitariamente, como a maioria dos grandes predadores marinhos, utilizando a visão (órbitas grandes) e possivelmente a eletrorrecepção para detectar presas.
Fisiologia e crescimento
A fisiologia de Dakosaurus era provavelmente intermediária entre ectotermia e endotermia parcial. Estudos sobre a distribuição paleolatitudinal dos metriorinquídeos (Young et al. 2023) indicam que eles eram mais restritos latitudinalmente do que ichthyosauros e plesiossauros, sugerindo metabolismo inferior ao desses grupos mas superior ao dos crocodilos modernos. A ausência de osteodermos, que em crocodilos modernos funcionam como termorreceptores e coletores de calor solar, indica que Dakosaurus dependia menos de aquecimento externo. O tamanho corporal considerável (4,5 m) também contribuiria para retenção de calor por gigantotermia.
Paleogeografia
Configuração continental
Ron Blakey · CC BY 3.0 · Jurássico, ~90 Ma
Durante o Oxfordiano-Titoniano (~157–137 Ma), Dakosaurus maximus habitava a Pangeia em processo de fragmentação. A América do Norte e a Europa ainda estavam próximas, e o Atlântico Norte mal começava a se abrir. O clima era quente e úmido em escala global, sem calotas polares.
Inventário de Ossos
O holótipo original (um dente isolado descrito por Plieninger em 1846) está perdido. O neótipo SMNS 8203, designado por Young & Andrade (2009), consiste em crânio incompleto, vértebras dorsais, sacrais e caudais, costelas, cinturas escapular e pélvica parciais e membros incompletos, proveniente de Staufen, Baden-Württemberg, Alemanha. Outros espécimes da Europa e Argentina complementam o conhecimento da espécie, mas nenhum esqueleto completo foi encontrado.
Estruturas encontradas
Estruturas inferidas
Literatura Científica
15 artigos em ordem cronológica — do artigo de descrição original até pesquisas recentes.
Über ein neues Saurier-Genus aus dem Keupersandstein von Stuttgart
Plieninger, T. · Jahreshefte des Vereins für vaterländische Naturkunde in Württemberg
Artigo fundador da história taxonômica de Dakosaurus maximus. Theodor Plieninger descreve dentes serrilhados isolados do Kimmeridgiano de Stuttgart sob o nome Geosaurus maximus, estabelecendo o epíteto específico que permanece válido até hoje. Os dentes, comprimidos lateralmente e com serrilhamento nas bordas mesial e distal, foram reconhecidos como distintos dos crocodilos típicos da época. A designação como Geosaurus refletia a percepção de que se tratava de um réptil marinho, mas a posição filogenética precisa ficaria sem resolução por décadas. Friedrich August von Quenstedt renomearia o gênero para Dakosaurus em 1856. Este trabalho histórico é o ponto de partida obrigatório para entender a nomenclatura da espécie e a evolução do conceito de crocodiliformes marinhos no século XIX.
Die Meer-Krocodilier (Thalattosuchia) des oberen Jura unter specieller Berücksichtigung von Dacosaurus und Geosaurus
Fraas, E. · Palaeontographica
Monografia clássica de Eberhard Fraas que estabeleceu as bases da sistemática dos Thalattosuchia. Fraas descreve o crânio e o esqueleto pós-craniano de Dacosaurus e Geosaurus a partir de espécimes da Suábia alemã, fornecendo as primeiras reconstruções anatômicas detalhadas do grupo. Particularmente importante é a documentação da morfologia craniana de Dakosaurus: crânio alto e robusto, órbitas posicionadas dorsalmente, dentes grandes e poucos em número. Fraas compara os metriorinquídeos com ichthyosauros e plesiossauros, concluindo que representam uma linhagem independente de adaptação ao ambiente marinho entre os crocodilos. O trabalho de Fraas serviu como referência anatômica primária por mais de um século, até ser superado pela monografia de Young et al. (2012), e o espécime SMNS 8203 que ele descreveu foi posteriormente designado neótipo da espécie.
New Dakosaurus (Crocodylomorpha, Thalattosuchia) from the Upper Jurassic of Argentina
Vignaud, P. & Gasparini, Z.B. · Comptes Rendus de l'Académie des Sciences de Paris
Trabalho fundamental que expandiu o registro geográfico de Dakosaurus para o Hemisfério Sul. Vignaud e Gasparini descrevem material craniano e pós-craniano do Titoniano superior da Bacia de Neuquén, Patagônia, erigindo provisoriamente a combinação Dakosaurus andiniensis com base em caracteres morfológicos distintos do material europeu. A descoberta demonstrou que os metriorinquídeos cruzaram o Proto-Atlântico e colonizaram os mares de Gondwana, com implicações biogeográficas enormes. A morfologia do crânio de D. andiniensis é ainda mais extrema do que em D. maximus: crânio mais alto, dentes maiores e em menor número, mandíbula muito robusta. Este trabalho preparou o terreno para o estudo de Gasparini, Pol & Spalletti (2006) em Science, que revelaria a extensão completa das especializações cranianas de D. andiniensis.
Skull anatomy of Dakosaurus andiniensis (Thalattosuchia: Crocodylomorpha) and the phylogenetic position of Thalattosuchia
Pol, D. & Gasparini, Z. · Journal of Systematic Palaeontology
Redescrição detalhada do crânio de D. andiniensis (espécime MOZ-PV 6146P, Museu Olsacher, Zapala) combinada com análise filogenética que posiciona Thalattosuchia como grupo-irmão de Crocodyliformes mais derivados. Pol e Gasparini documentam em detalhe a morfologia craniana extraordinária de D. andiniensis: crânio alto e curto (razão comprimento/altura muito menor que em qualquer outro metriorinquídeo), pré-maxilas expandidas lateralmente, dentes macroziphodontes com denticulações em ambas as carenas. A análise cladística inclui 31 táxons e 173 caracteres, sendo um dos conjuntos de dados mais completos publicados até então para Crocodyliformes. A posição de Thalattosuchia como crocodiliformes basais com afinidades mesoeucrocodilas é estabelecida com robustez. Este trabalho foi o catalizador para a pesquisa de Young et al. (2012) sobre D. maximus e P. manselii.
An Unusual Marine Crocodyliform from the Jurassic-Cretaceous Boundary of Patagonia
Gasparini, Z., Pol, D. & Spalletti, L.A. · Science
Um dos artigos de maior impacto sobre metriorinquídeos, publicado na Science. Gasparini, Pol e Spalletti descrevem o espécime MOZ-PV 6146P de Dakosaurus andiniensis da Formação Vaca Muerta da Patagônia e revelam um grau de especialização craniana sem paralelo entre os crocodiliformes marinhos: crânio alto e robusto, com mandíbula profunda e apenas poucos dentes grandes e serrilhados, convergente com os de grandes terópodes terrestres como Allosaurus. A convergência com predadores terrestres indica nicho ecológico de macrofagia extrema em ambiente marinho, e os autores postulam que D. andiniensis se alimentava de grandes répteis marinhos como ichthyosauros e plesiossauros. O apelido 'Godzilla' aplicado ao espécime pelos paleontólogos argentinos captura bem a percepção de um predador excepcional. O artigo transformou a compreensão da diversidade ecológica dos metriorinquídeos.
What is Geosaurus? Redescription of Geosaurus giganteus (Thalattosuchia: Metriorhynchidae) from the Upper Jurassic of Bayern, Germany
Young, M.T. & Andrade, M.B. · Zoological Journal of the Linnean Society
Artigo que formalizou a separação de Geosaurus e Dakosaurus como gêneros distintos e designou o neótipo SMNS 8203 de Dakosaurus maximus, resolvendo problema nomenclatural de longa data causado pela perda do holótipo original (um dente isolado descrito por Plieninger). Young & Andrade redescricionam Geosaurus giganteus a partir de material de Bayern e realizam análise filogenética de Geosaurinae, posicionando Dakosaurus como grupo-irmão de Plesiosuchus dentro de um clado de metriorinquídeos macrofarígeos de grande porte. O neótipo SMNS 8203, proveniente de Staufen, Baden-Württemberg, consiste de crânio incompleto, vértebras, costelas e membros parciais. A designação do neótipo estabilizou a taxonomia da espécie e permitiu comparações mais precisas entre espécimes europeus e sul-americanos.
The evolution of Metriorhynchoidea (Mesoeucrocodylia, Thalattosuchia): an integrated approach using geometric morphometrics, analysis of disparity, and biomechanics
Young, M.T., Brusatte, S.L., Ruta, M. & Andrade, M.B. · Zoological Journal of the Linnean Society
Estudo macroevolutivo abrangente que analisa a evolução dos Metriorhynchoidea usando morfometria geométrica (análise de forma craniana), análise de disparidade morfológica e modelagem biomecânica. Young et al. demonstram que os metriorinquídeos se diversificaram em dois ecomorfos distintos: os Geosaurinae (grandes macrofagos com crânio alto e dentes serrilhados, incluindo Dakosaurus) e os Metriorhynchinae (piscívoros com crânio baixo e dentes lisos). As trajetórias evolutivas dos dois grupos foram radicalmente diferentes: os Geosaurinae expandiram tanto a forma quanto a função craniana de forma não correlacionada, enquanto os Metriorhynchinae mantiveram forma estável com mudança funcional direcional. Dakosaurus representa o extremo da especialização Geosaurina, com o menor número de dentes e maior razão altura/comprimento do crânio dentro do grupo. O trabalho estabelece o contexto evolutivo essencial para entender por que Dakosaurus evoluiu dentes convergentes com terópodes.
The evolution of extreme hypercarnivory in Metriorhynchidae (Mesoeucrocodylia: Thalattosuchia) based on evidence from microscopic denticle morphology
Andrade, M.B. de, Young, M.T., Desojo, J.B. & Brusatte, S.L. · Journal of Vertebrate Paleontology
Estudo sobre a morfologia dos dentículos microscópicos nos dentes de metriorinquídeos, revelando que Dakosaurus desenvolveu dentição ziphodonte verdadeira, convergente com a de dinossauros carnívoros como Allosaurus e Megalosaurus. Andrade et al. analisam a ultraestrutura dos dentículos em MEB (Microscopia Eletrônica de Varredura) e demonstram que os dentes de Dakosaurus possuem dentículos simétricos em ambas as carenas (mesial e distal), morfologicamente indistinguíveis dos de terópodes, enquanto os demais metriorinquídeos têm dentículos simplificados ou ausentes. Esta convergência resulta de pressão seletiva para macrofagia em ambiente marinho: dentes ziphodontes são ideais para cortar carne de presas grandes. O trabalho fornece evidência direta de que Dakosaurus era hipercarnívoro especializado, capaz de consumir presas muito maiores do que qualquer outro metriorinquídeo, confirmando as hipóteses ecológicas de Gasparini et al. (2006).
Craniofacial form and function in Metriorhynchidae (Crocodylomorpha: Thalattosuchia): modelling phenotypic evolution with maximum-likelihood methods
Young, M.T., Bell, M.A. & Brusatte, S.L. · Biology Letters
Análise de máxima verossimilhança aplicada à co-evolução de forma e função craniana nos metriorinquídeos. Young, Bell & Brusatte testam modelos evolutivos alternativos (Browniano, Ornstein-Uhlenbeck, evolução direcional) para forma craniana e variáveis biomecânicas derivadas de análise de elementos finitos. Resultado central: nos Geosaurinae (incluindo Dakosaurus), forma e função co-evoluem de forma descorrelacionada, sugerindo competição por nicho ecológico por diferenciação morfológica mesmo quando as funções biomecânicas são similares. Nos Metriorhynchinae, a função muda direcionalmente sem mudança de forma. Este padrão implica que os Geosaurinae estavam sob seleção para diferenciação morfológica mesmo dentro do mesmo nicho trófico de macrofagia, possivelmente para evitar competição interespecífica entre Dakosaurus, Plesiosuchus e Torvoneustes que coexistiam na mesma fauna.
The Cranial Osteology and Feeding Ecology of the Metriorhynchid Crocodylomorph Genera Dakosaurus and Plesiosuchus from the Late Jurassic of Europe
Young, M.T., Brusatte, S.L., Andrade, M.B. de, Desojo, J.B., Beatty, B.L., Steel, L., Fernández, M.S., Sakamoto, M., Ruiz-Omeñaca, J.I. & Schoch, R.R. · PLOS ONE
A monografia osteológica mais completa já publicada sobre Dakosaurus maximus, baseada principalmente no neótipo SMNS 8203. Young et al. fornecem descrição anatômica detalhada de todos os elementos cranianos preservados, documentam pela primeira vez as 'placas laterais' das pré-maxilas, a ornamentação das maxilas, a dentição macroziphodonte com oclusão intravante e o macrowear extenso nas carenas dos dentes. Resurrección do gênero Plesiosuchus para o material previamente referido a Dakosaurus manselii é proposta e fundamentada. A análise de ecologia alimentar demonstra que D. maximus e P. manselii eram predadores de topo com estratégias distintas: D. maximus era macrofago de presas grandes (répteis marinhos), enquanto P. manselii era provavelmente um predador generalista capaz de sucção. A coexistência foi possível por partilha de nicho trófico. Com 31 figuras e 3 tabelas, é a referência anatômica obrigatória para a espécie.
Thalattosuchian crocodylomorphs from European Russia, and new insights into metriorhynchid tooth serration evolution and their palaeolatitudinal distribution
Young, M.T., Zverkov, N.G., Arkhangelsky, M.S., Ippolitov, A.P., Meleshin, I.A., Mirantsev, G.V., Shmakov, A.S. & Stenshin, I.M. · PeerJ
Estudo que expande significativamente o registro geográfico dos metriorinquídeos para a Rússia europeia. Young et al. descrevem onze coroas dentárias isoladas e seis vértebras do Caloviano ao Valanginiano da Rússia europeia, representando metriorinquídeos com morfologia de serração variável. Os cálculos paleolatitudinais revelam que os espécimes russos estão entre os mais setentrionais já documentados para o grupo (44–50°N), e que metriorinquídeos são raros acima de 44°N e ausentes acima de 50°N. Esta distribuição contrasta com ichthyosauros e plesiossauros que alcançavam latitudes muito mais altas, sugerindo que os metriorinquídeos possuíam metabolismo intermediário, não totalmente ectotérmico mas também não endotérmico pleno. As implicações para Dakosaurus são diretas: a espécie vivia em latitudes baixas e médias do Tetis europeu, bem dentro da faixa de 30–45°N, onde as temperaturas oceânicas jurássicas eram adequadas ao seu nível metabólico.
Revision of the Late Jurassic teleosauroid thalattosuchians from the Museo Civico di Storia Naturale di Milano and the Musée des Sciences de la Terre de Marrakech
Young, M.T., Hua, S., Steel, L., Foffa, D., Brusatte, S.L., Thüring, S., Mateus, O., Ruiz-Omeñaca, J.I., Havlik, P., Lepage, Y. & Andrade, M.B. de · Acta Palaeontologica Polonica
Revisão sistemática de talatosuquianos teleossaurídeos de coleções museológicas italianas e marroquinas, que fornece contexto essencial para entender a diversidade e paleoecologia dos metriorinquídeos no mesmo ecossistema. Young et al. redescricionam e revisam vários espécimes teleossaurídeos do Jurássico superior, estabelecendo diagnoses emendadas e relações filogenéticas atualizadas. O trabalho é relevante para Dakosaurus porque demonstra a coexistência de múltiplas linhagens de crocodiliformes marinhos no mesmo intervalo temporal e geográfico: enquanto os teleossaurídeos eram piscívoros de snout longo, os metriorinquídeos como Dakosaurus ocupavam o nicho de predadores de topo. Esta partilha de recursos no ecossistema marinho jurássico é um padrão amplamente documentado, e o presente trabalho contribui com dados taxonômicos e morfológicos que refinam a compreensão da biodiversidade do grupo.
The first definitive Middle Jurassic atoposaurid crocodyliform, and a discussion on the atoposaurid body plan
Young, M.T., Tennant, J.P., Brusatte, S.L., Challands, T.J., Fraser, N.C., Clark, N.D.L. & Ross, D.A. · Zoological Journal of the Linnean Society
Descrição de material inédito de atoposaurídeo do Jurássico Médio da Escócia, com discussão sobre a diversidade de planos corporais nos Crocodyliformes. Young et al. descrevem o espécime mais antigo definitivo de Atoposauridae e discutem as implicações para entender como os diferentes grupos de crocodiliformes divergiram morfologicamente. Embora o foco seja em atoposaurídeos terrestres, o trabalho fornece contexto filogenético importante para Dakosaurus e os Metriorhynchidae ao mapear as transformações do plano corporal crocodiliformes ao longo do Jurássico. A discussão sobre a aquisição de características aquáticas em diferentes linhagens de crocodiliformes é diretamente relevante para entender como Dakosaurus chegou à sua morfologia extremamente especializada para o ambiente marinho.
A complete morphological description of Dakosaurus maximus (Crocodyliformes: Thalattosuchia) with further insights into their palaeoecology
Herrera, Y., Spindler, F. & Bronzati, M. · Palaeontologia Electronica
A descrição morfológica mais abrangente de Dakosaurus maximus publicada até o presente, baseada em espécime com crânio em grande parte completo e postcranial quase totalmente articulado da Formação Torleite da Baviera, Alemanha. Herrera, Spindler e Bronzati fornecem novas informações sobre anatomia craniana e pós-craniana, incluindo elementos nunca antes documentados em D. maximus como ossos do palato, detalhes da caixa craniana e elementos das nadadeiras anteriores e posteriores. A análise filogenética atualizada posiciona D. maximus dentro de Geosaurini com suporte robusto, confirmando sua relação estreita com Plesiosuchus. As novas observações pós-cranianas revelam detalhes da adaptação ao ambiente marinho: vértebras modificadas, estrutura das nadadeiras e anatomia da cauda bifurcada. As interpretações paleoecológicas são refinadas com base na nova morfologia, confirmando o papel de Dakosaurus como predador de topo especializado em presas de grande porte.
The history, systematics, and nomenclature of Thalattosuchia (Archosauria: Crocodylomorpha)
Young, M.T., Foffa, D., Steel, L., Andrade, M.B. de, Brusatte, S.L., Desojo, J.B. & Schoch, R.R. · Zoological Journal of the Linnean Society
Revisão abrangente da história, sistemática e nomenclatura de Thalattosuchia, o grupo que inclui Dakosaurus maximus. Young et al. revisam toda a história nomenclatural do grupo desde os primeiros trabalhos do século XIX, incluindo as contribuições de Plieninger (1846) e Quenstedt (1856) que estabeleceram a nomenclatura de Dakosaurus. O trabalho propõe correções nomenclaturais importantes e apresenta análise filogenética atualizada de todos os táxons de Thalattosuchia com base nos dados publicados entre 2009 e 2024. Para Dakosaurus maximus, os autores confirmam a validade da espécie e discutem o estatuto de D. andiniensis como espécie separada válida. O estudo representa a síntese taxonômica mais completa sobre Thalattosuchia publicada até então e serve como referência definitiva para a nomenclatura do grupo.
Espécimes famosos em museus
SMNS 8203 (Neótipo)
Staatliches Museum für Naturkunde Stuttgart, Stuttgart, Alemanha
Neótipo oficial de Dakosaurus maximus, designado por Young & Andrade em 2009 para substituir o holótipo perdido (um dente isolado descrito por Plieninger em 1846). Consiste em crânio incompleto, vértebras dorsais, sacrais e caudais, costelas e membros parciais de Staufen, Baden-Württemberg. O crânio está exposto na mostra permanente do museu.
MOZ-PV 6146P
Museo Olsacher de Zapala, Zapala, Neuquén, Argentina
Espécime referido de Dakosaurus andiniensis da Formação Vaca Muerta do Titoniano superior da Patagônia argentina. Foi descrito por Gasparini, Pol & Spalletti (2006) na Science e é o espécime que recebeu o apelido 'Godzilla' pelos paleontólogos argentinos devido à morfologia craniana extrema. É o espécime de Dakosaurus mais completo do Hemisfério Sul.
Espécime de Painten
Bayerische Staatssammlung für Paläontologie und Geologie, Munique, Alemanha
Espécime baváriano de Dakosaurus sp. com partes do crânio e esqueleto pós-craniano preservadas. Referenciado na literatura como material de comparação para D. maximus, contribui para o entendimento da variabilidade intraespecífica e da distribuição geográfica dos Dakosaurus na Alemanha.
No cinema e na cultura popular
Dakosaurus maximus é praticamente ausente das grandes produções cinematográficas, em contraste com os ictiosauros e plesiossauros que frequentemente aparecem como ameaças marinhas em filmes de aventura. Sua ausência nos grandes blockbusters provavelmente se deve ao fato de sua descoberta científica mais impactante, o espécime 'Godzilla' da Argentina, ter ocorrido apenas em 2005, tarde demais para influenciar a geração de produções dos anos 1990 e 2000. Em documentários científicos, Dakosaurus aparece com frequência crescente a partir de 2008, com destaque para produções de museus em 3D que exploram os mares do Jurássico. A comparação com tubarões-branco e com o 'Godzilla' real são os ganchos narrativos mais usados. Com as descobertas recentes de 2026 tornando Dakosaurus o metriorinquídeo mais completo e estudado, é provável que o animal ganhe mais visibilidade cultural nas próximas décadas.
Classificação
Descoberta
Curiosidade
Dakosaurus é o único crocodiliformes conhecido com dentes serrilhados e comprimidos lateralmente ao mesmo tempo, um traço que evoluiu de forma convergente nos grandes terópodes terrestres como Allosaurus. O espécime argentino D. andiniensis recebeu o apelido de 'Godzilla' pelos paleontólogos que o descobriram, impressionados com a morfologia craniana extrema do animal.