Tafonomia
O que é um fóssil?
Quase tudo que sabemos sobre dinossauros vem de fósseis. Mas a fossilização é um processo extremamente raro, que depende de condições muito específicas. Entender como fósseis se formam (e por que a maioria dos animais nunca vira um) é essencial para interpretar o que o registro fóssil realmente nos diz.
Definição e conceitos básicos
Um fóssil é qualquer vestígio preservado de vida antiga, geralmente com mais de 10.000 anos. Pode ser um osso, um dente, uma pegada, uma impressão de folha, um inseto preso em resina ou até marcas de comportamento como ninhos e tocas.
A palavra "fóssil" vem do latim fossilis, que significa "obtido por escavação". Até o século XVIII, o termo se aplicava a qualquer coisa desenterrada, incluindo minerais e cristais. Hoje a definição se restringe a vestígios de organismos vivos preservados em rochas sedimentares, âmbar, gelo, turfa ou asfalto.
Fósseis são divididos em duas categorias principais. Fósseis corporais (body fossils) preservam partes do organismo: ossos, dentes, conchas, madeira, folhas. Icnofósseis (trace fossils) preservam evidências de atividade: pegadas, trilhas, coprólitos (fezes fossilizadas), ninhos, tocas e marcas de mordida.
Fóssil vs. subfóssil
Subfósseis são restos que ainda não passaram por mineralização completa. Ossos de mamutes congelados na Sibéria, preguiças-gigantes preservadas em cavernas e até múmias humanas entram nessa categoria. A distinção é gradual, não absoluta: não existe um momento exato em que um osso "vira" fóssil.
Os números do registro fóssil
Como a fossilização ocorre
A fossilização é uma corrida contra a destruição. Quando um animal morre, predadores, carniceiros, bactérias, insetos, raízes, chuva, vento e sol trabalham juntos para apagar todo vestígio do corpo. Para virar fóssil, o organismo precisa escapar de todos esses agentes.
Tipos de fossilização
Existem múltiplas formas de um organismo ser preservado. Cada tipo produz informações diferentes e revela aspectos distintos da vida antiga.
Preservação excepcional: Lagerstätten
Lagerstätten (alemão: "lugar de armazenamento") são depósitos fósseis com preservação excepcional, incluindo tecidos moles, penas, conteúdo estomacal e órgãos internos. Os mais famosos incluem: o Folhelho de Burgess (Cambriano, Canadá), que preservou os primeiros animais complexos; a Biota Jehol (Cretáceo, China), com dinossauros emplumados; o Calcário de Solnhofen (Jurássico, Alemanha), onde Archaeopteryx foi encontrado; e o âmbar birmanês (Cretáceo, Myanmar), com insetos, flores e até caudas de dinossauros em 3D. Esses depósitos fornecem informações que milhões de fósseis "normais" não conseguem: a aparência real dos animais, suas cores, suas dietas, a ecologia de comunidades inteiras.
Quão raro é um dinossauro virar fóssil?
A expressão clássica na paleontologia é "uma chance em um milhão". É figurativa, mas captura a escala do problema.
A pirâmide tafonômica: de todas as espécies vivas, apenas uma fração mínima é soterrada, fossilizada e descoberta. Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0
A cascata de destruição
Quando um dinossauro morre, uma sequência de eventos trabalha contra a fossilização. Carniceiros (outros dinossauros, mamíferos, insetos) consomem carne e desarticulam o esqueleto. Bactérias decompõem tecidos moles em semanas. Raízes de plantas infiltram os ossos. Exposição ao sol causa rachaduras. Chuvas e rios transportam e fragmentam os restos. Para cada dinossauro que conhecemos como fóssil, milhões viveram e morreram sem deixar rastro.
A maioria é fragmentária
Mesmo quando um dinossauro é fossilizado, quase nunca é preservado inteiro. A maioria das espécies de dinossauros é conhecida a partir de um único osso, um dente isolado ou um fragmento de crânio. Encontrar 50% de um esqueleto já é considerado extraordinário. Sue, o Tyrannosaurus rex mais completo já encontrado, tem 90% do esqueleto preservado por volume (250 de ~380 ossos): uma exceção rara o suficiente para virar celebridade mundial.
Por que ossos, não carne?
O registro fóssil é dominado por partes duras: ossos, dentes, conchas, exoesqueletos. Tecidos moles (músculos, órgãos, pele) decompõem-se muito rapidamente para serem preservados, exceto em condições excepcionais. É por isso que a aparência real da maioria dos dinossauros é reconstituída por inferência: a forma dos músculos a partir das marcas de inserção nos ossos, as cores a partir de melanossomas preservados em penas, a pele a partir de raras impressões em lama.
90%
Sue (T. rex), o mais completo
<5%
completude média de espécimes
0
esqueletos 100% completos
165 Ma
duração da era dos dinossauros
Onde fósseis se formam?
Nem todos os ambientes preservam fósseis igualmente. Alguns favorecem a fossilização; outros a impedem quase completamente.
Alta preservação
Planícies de inundação e rios
Sedimentação rápida durante enchentes. A maioria dos fósseis de dinossauros vem de ambientes fluviais e aluviais.
Margens de lagos e lagoas
Sedimento fino, água calma, baixo oxigênio no fundo. Ambiente de muitos Lagerstätten.
Depósitos vulcânicos
Cinzas vulcânicas cobrem e selam organismos rapidamente. A Biota Jehol foi preservada por erupções.
Fundos marinhos
Sedimentação contínua, ambiente anaeróbico. Animais marinhos têm potencial de fossilização muito maior que terrestres.
Baixa preservação
Florestas tropicais
Decomposição extremamente rápida, solo ácido, alta atividade biológica. Quase nenhum fóssil se forma em florestas tropicais.
Montanhas e áreas de erosão
Rochas estão sendo removidas, não depositadas. Sem sedimentação, sem fossilização.
Oceano profundo abissal
Toda crosta oceânica é reciclada por subducção em ~200 Ma. Nenhum fóssil marinho anterior ao Jurássico sobrevive em crosta oceânica.
Áreas glaciadas
Geleiras raspam e destroem sedimentos ao avançar. Escandinávia e Canadá perderam quase todo o registro fóssil pré-glacial.
Preservação excepcional
Resina (âmbar)
Preserva organismos em 3D com detalhes microscópicos. Limitado a animais muito pequenos.
Poços de asfalto
La Brea Tar Pits (Los Angeles): milhares de mamíferos do Pleistoceno preservados em asfalto natural.
Permafrost
Mamutes com carne, pelo e DNA preservados no gelo siberiano por até 40.000 anos.
Turfeiras e pântanos
Ambiente ácido e anaeróbico preserva pele e cabelo. "Corpos de turfa" humanos com milhares de anos.
O viés tafonômico: como os fósseis distorcem a realidade
O registro fóssil não é uma amostra aleatória da vida passada. É uma amostra profundamente enviesada. Entender esses vieses é tão importante quanto os fósseis em si.
Viés de ambiente
Animais que viviam perto de rios e lagos são muito mais representados do que os que viviam em florestas ou montanhas. Isso significa que nossa imagem dos ecossistemas mesozoicos é dominada por animais de planícies aluviais. Espécies de floresta densa, encosta de montanha ou ilha vulcânica são quase invisíveis no registro. Não sabemos quase nada sobre a fauna de floresta tropical do Cretáceo, simplesmente porque florestas tropicais não preservam fósseis.
Viés de tamanho
Animais grandes são mais facilmente preservados e encontrados do que pequenos. Ossos grandes resistem mais ao transporte e à destruição, e são mais fáceis de identificar em campo. Isso cria uma ilusão de que dinossauros eram todos enormes. Na realidade, a maioria das espécies de dinossauros tinha o tamanho de uma galinha, um cachorro ou uma pessoa. Dinossauros menores que 1 metro são severamente sub-representados.
Viés de partes duras
Organismos sem conchas, ossos ou exoesqueletos quase nunca fossilizam. Todo o reino dos vermes, das águas-vivas, dos polvos de corpo mole e de incontáveis invertebrados é praticamente ausente do registro fóssil. Entre os vertebrados, animais com ossos mais densos (como saurópodes) são mais preservados do que os de ossos pneumatizados e frágeis (como pterossauros e aves). Isso distorce profundamente estimativas de biodiversidade.
Viés geográfico
Rochas mesozoicas não estão expostas igualmente em todos os continentes. A América do Norte, a Argentina e a China têm vastas extensões de badlands (terras erodidas) onde rochas cretáceas e jurássicas estão expostas na superfície. Países como EUA, Argentina, China e Mongólia dominam as descobertas não porque tinham mais dinossauros, mas porque suas rochas estão expostas e acessíveis. Vastas áreas da África, da Índia e do Sudeste Asiático têm formações mesozoicas cobertas por vegetação, agricultura ou cidades.
Viés de amostragem humana
Paleontólogos tendem a procurar onde já encontraram antes. Formações famosas (Hell Creek, Morrison, Ischigualasto) recebem mais atenção, recursos e pesquisadores do que regiões inexploradas. Países com tradição paleontológica e financiamento de pesquisa dominam as publicações. Isso cria ciclos de retroalimentação: mais descobertas atraem mais pesquisadores, que fazem mais descobertas no mesmo lugar, enquanto vastas regiões do planeta permanecem virtualmente inexploradas.
Viés temporal
Quanto mais antiga a rocha, mais provável que tenha sido destruída por erosão, metamorfismo ou subducção. Conhecemos muito mais espécies do Cretáceo Superior (83-66 Ma) do que do Triássico Médio (247-237 Ma), em parte porque mais rochas do Cretáceo sobreviveram. A aparente "explosão" de diversidade de dinossauros no Cretáceo pode ser parcialmente um artefato de preservação, não um reflexo fiel da diversidade real ao longo do tempo.
O que isso significa na prática?
Cada afirmação sobre dinossauros carrega uma margem de incerteza criada pelo viés tafonômico. Quando dizemos que "Tyrannosaurus rex era o maior predador da América do Norte no Maastrichtiano", isso é verdade dentro dos limites do que o registro fóssil preservou. Pode ter existido um predador maior que vivia em florestas densas e nunca fossilizou, ou que viveu em uma região cujas rochas foram destruídas. A paleontologia moderna incorpora essa incerteza em seus modelos e evita tratar o registro fóssil como um censo completo do passado.
Referências
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Kidwell, S.M. & Holland, S.M. (2002). The quality of the fossil record: implications for evolutionary analyses. Annual Review of Ecology and Systematics, 33, 561-588.
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