Edmontosaurus annectens
Edmontosaurus annectens
"Lagarto de Edmonton (conectado)"
Sobre esta espécie
O Edmontosaurus annectens foi um dos maiores e mais abundantes herbívoros do final do Cretáceo norte-americano. Com até 12 metros de comprimento e cerca de 5,6 toneladas, percorria em manadas as planícies alagadas da Formação Hell Creek há 73 a 66 milhões de anos. Seu focinho largo e achatado, típico dos hadrossaurídeos, encerrava uma bateria dental sofisticada com centenas de dentes substituíveis, adaptados para moer vegetação fibrosa. É famoso pela 'múmia' AMNH 5060, espécime com pele preservada que revelou escamas poligonais e tecido mole, e por evidências de predação pelo Tyrannosaurus rex.
Formação geológica e ambiente
A Formação Hell Creek (Maastrichtiano superior, ~66 Ma) é o depósito fóssil mais estudado do mundo para dinossauros do final do Cretáceo. Estende-se por Montana, Dakota do Sul, Dakota do Norte e Wyoming, representando um ambiente de planícies costeiras subtropicais com rios meandrantes e vegetação diversa. Era o último ecossistema dominado por dinossauros antes do evento de extinção KPg. Além do Edmontosaurus, abrigava Tyrannosaurus rex, Triceratops, Ankylosaurus e Pachycephalosaurus. A Formação Lance, correlata no Wyoming, preservou os espécimes mais icônicos da espécie, incluindo o holótipo e a múmia AMNH 5060.
Galeria de imagens
Reconstituição moderna de Edmontosaurus annectens baseada em pesquisas recentes, incluindo a descoberta de cascos queratinizados e crista dorsal carnuda (Sereno et al., 2025).
Connor Ashbridge (Ddinodan) — CC BY 4.0
Ecologia e comportamento
Habitat
O Edmontosaurus annectens habitava planícies aluviais subtropicais densamente vegetadas da Formação Hell Creek e Lance, no atual noroeste dos Estados Unidos e Canadá, há 73 a 66 Ma. O ambiente era uma paisagem de planícies costeiras com florestas abertas de angiospermas, coníferas, samambaias e ginkgos, próximas a rios e estuários que desaguavam no Mar Interior Ocidental. O clima era subtropical úmido, com temperatura média anual estimada em 10-17°C, muito mais quente do que hoje na mesma latitude. Registros no Ártico (Formação Prince Creek, Alasca) sugerem que populações de Edmontosaurus chegavam a latitudes polares.
Alimentação
Herbívoro com a bateria dental mais sofisticada de todos os dinossauros: até 60 famílias dentárias com aproximadamente 300 dentes por dentário, organizados em seis camadas de tecido de dureza diferencial para auto-afiação durante o desgaste (Erickson et al., 2012). A análise de microdesgaste (Williams et al., 2009) indica mecanismo de mandíbula pleuroquinético, com mastigação quase vertical e leve movimento ântero-posterior, voltado para processar vegetação rasteira abrasiva como gramíneas e arbustos. Provavelmente pastava em postura quadrúpede e erguia o pescoço em postura bípede para alcançar folhagem mais alta. A bateria dental era continuamente substituída ao longo da vida.
Comportamento e sentidos
Evidências de múltiplos depósitos monodominantes (Ruth Mason Quarry, Hanson Ranch Bonebed, Standing Rock Hadrosaur Site) com dezenas a milhares de indivíduos indicam comportamento gregário e formação de grandes manadas. Análises de Wosik e Evans (2022) sugerem segregação ontogenética: juvenis viviam separados dos adultos. O modelo do 'caribu cretáceo' (migração sazonal de alta para baixa latitude) é sustentado por dados isotópicos (Fricke et al., 2009), mas populações árticas podem ter sido residentes permanentes (Chiarenza et al., 2020). Lesões caudais crónicas em vários espécimes (Anné et al., 2023) sugerem interações intra-específicas com uso da cauda.
Fisiologia e crescimento
A análise histológica (Wosik & Evans, 2022) revela crescimento rápido, atingindo 95% da massa adulta (~5,6 t) aos 9 anos, compatível com metabolismo endotérmico. A capacidade de sobreviver no Ártico do Cretáceo (Formação Prince Creek, latitude paleogeográfica ~80°N), com meses de escuridão polar, reforça fisiologia de sangue quente. Pesquisas de 2025 (Sereno et al.) confirmaram cascos queratinizados nos dedos II-IV dos membros traseiros (até 15,2 cm) e almofada de calcanhar carnosa, sustentando postura subunguligrada para locomoção terrestre eficiente em substratos moles. A crista dorsal carnuda recém-descoberta pode ter função de termorregulação ou sinalização social.
Paleogeografia
Configuração continental
Ron Blakey · CC BY 3.0 · Cretáceo, ~90 Ma
Durante o Maastrichtiano (~73–66 Ma), Edmontosaurus annectens habitava a Laramídia, a metade ocidental do que hoje é a América do Norte, separada pelo Mar Interior do Oeste (Western Interior Seaway), um mar raso que dividia o continente ao meio. Os continentes estavam em posições muito diferentes das atuais: a Índia viajava em direção à Ásia, a Antártida ainda estava conectada à Austrália, e a América do Sul era uma ilha separada.
Inventário de Ossos
Espécie extraordinariamente bem documentada, conhecida a partir de mais de uma dúzia de esqueletos completos ou quase completos articulados. O espécime AMNH 5060, a 'múmia de Trachodon', preservou pele e tecido mole. O espécime 'Dakota' (NDGSv8709), encontrado em 1999 no Dakota do Norte, é o mais bem preservado da espécie.
Estruturas encontradas
Estruturas inferidas
Literatura Científica
15 artigos em ordem cronológica — do artigo de descrição original até pesquisas recentes.
Notice of new reptiles from the Laramie Formation
Marsh, O.C. · American Journal of Science
Artigo fundador da espécie. Othniel Charles Marsh nomeia Claosaurus annectens a partir de espécimes coletados por John Bell Hatcher na Formação Lance do Wyoming. O holótipo (YPM 575) inclui crânio articulado, coluna vertebral, costelas e elementos do membro. Marsh observa a morfologia peculiar do focinho amplo e achatado, típico dos dinossauros 'bico de pato', e compara o espécime com Claosaurus agilis, concluindo que se trata de uma nova espécie. O epíteto 'annectens' (latim para 'conectado') foi escolhido para indicar a posição transicional percebida do animal entre formas mais primitivas e mais derivadas de hadrossaurídeos. Este nome e espécime seriam reatribuídos ao gênero Edmontosaurus décadas depois, quando Lawrence Lambe estabeleceu o gênero a partir de material canadense em 1917.
Integument of the iguanodont dinosaur Trachodon
Osborn, H.F. · Memoirs of the American Museum of Natural History
Descrição científica pioneira da 'múmia de Trachodon' (AMNH 5060), o primeiro dinossauro encontrado com pele preservada. Osborn documenta a cobertura integumentar em detalhe: escamas poligonais de 1 a 4 mm no tronco e de 3 a 9 mm na cauda, impressões de tecido mole e o contorno corporal revelado pela pele ressecada colada ao esqueleto. A análise revela que o animal tinha musculatura significativamente menos desenvolvida do que ilustrações contemporâneas sugeriam, com membros relativamente esguios. Osborn também descreve uma estrutura em forma de friso ao longo do dorso. O trabalho abre um campo totalmente novo: a paleodermatologia dos dinossauros. Embora algumas interpretações de Osborn tenham sido revisadas, a descrição anatômica básica das escamas e do padrão integumentar permanece como referência fundamental para todos os estudos posteriores de tegumento hadrossaurídeo.
Global phylogeny of Hadrosauridae (Dinosauria: Ornithopoda) using parsimony and Bayesian methods
Prieto-Márquez, A. · Zoological Journal of the Linnean Society
Análise filogenética global e mais abrangente de Hadrosauridae até aquela data, utilizando métodos de parcimônia e bayesiano com 23 táxons e 260 caracteres. Prieto-Márquez estabelece formalmente a subfamília Saurolophinae (que inclui Edmontosaurus) e define os grupos internos. O Edmontosaurus annectens é posicionado como táxon-irmão de E. regalis dentro da tribo Edmontosaurini, sendo esta por sua vez grupo-irmão de Shantungosaurus da Ásia. O estudo resolve décadas de confusão taxonômica: sinônimos históricos como Anatotitan, Diclonius e Thespesius são reavaliados e em sua maioria considerados inválidos. A análise bayesiana fornece pela primeira vez estimativas de probabilidade posterior para os nós da árvore hadrossaurídea, conferindo rigor estatístico à filogenia. Este trabalho é a referência padrão para a classificação de hadrossaurídeos na primeira década do século XXI.
Cranial Growth and Variation in Edmontosaurs (Dinosauria: Hadrosauridae): Implications for Latest Cretaceous Megaherbivore Diversity in North America
Campione, N.E. & Evans, D.C. · PLOS ONE
Estudo morfométrico decisivo que resolve a controversa taxonomia dos edmontossauros. Campione e Evans analisam virtualmente todos os crânios completos conhecidos e concluem que apenas duas espécies são válidas: E. regalis (Campaniano tardio) e E. annectens (Maastrichtiano tardio). O polêmico Anatotitan copei, frequentemente tratado como gênero separado em livros populares de dinossauros, é sinonimizado com E. annectens: as diferenças morfológicas que sustentavam Anatotitan são explicadas pelo crescimento alométrico e pelo aumento ontogenético do tamanho do crânio. O estudo também sugere que a diversidade de megaherbívoros declinou do início para o final do Maastrichtiano, antes da extinção de fim de Cretáceo, em consonância com outras linhas de evidência sobre o colapso ecológico pré-KPg. Os autores utilizam análise de componentes principais e análise de agrupamento hierárquico, tornando o trabalho um modelo metodológico para estudos taxonômicos de hadrossaurídeos.
Supplementary cranial description of the types of Edmontosaurus regalis (Ornithischia: Hadrosauridae), with comments on the phylogenetics and biogeography of Hadrosaurinae
Xing, H., Mallon, J.C. & Currie, M.L. · PLOS ONE
Descrição craniana suplementar dos tipos de E. regalis com implicações diretas para a filogenia e biogeografia de E. annectens. Xing et al. documentam características anatômicas previamente não descritas dos tipos de E. regalis e revisam o diagnóstico da espécie com uma nova autapomorfia. A análise filogenética posiciona Kerberosaurus como táxon-irmão do clado Shantungosaurus + Edmontosaurus dentro de Edmontosaurini, sugerindo uma origem norte-americana para Hadrosaurinae com subsequente dispersão para a Ásia. O trabalho clarifica a delimitação entre as duas espécies de Edmontosaurus, identificando características do crânio que distinguem E. regalis (crânio relativamente mais curto e alto) de E. annectens (crânio excepcionalmente longo e baixo). A análise biogeográfica utiliza o método de análise de áreas ancestrais, apontando para colonização asiática a partir da América do Norte durante o Campaniano-Maastrichtiano.
Quantitative analysis of dental microwear in hadrosaurid dinosaurs, and the implications for hypotheses of jaw mechanics and feeding
Williams, V.S., Barrett, P.M. & Purnell, M.A. · Proceedings of the National Academy of Sciences
Williams, Barrett e Purnell aplicam a técnica de análise de microdesgaste dental ao Edmontosaurus, examinando microscopicamente as superfícies dos dentes para identificar padrões de arranhões e depressões deixados durante a alimentação em vida. A análise identifica quatro orientações distintas de arranhões, fornecendo evidência direta sobre os movimentos relativos das mandíbulas durante a mastigação. Os resultados apoiam o mecanismo de mandíbula 'pleuroquinético': fechamento quase vertical com ligeiros movimentos anteroposterior. A dominância de arranhões sobre cavidades indica que o Edmontosaurus pastava principalmente vegetação abrasiva, como gramíneas e arbustos rasteiros, em vez de folhas macias de árvores. O estudo resolve décadas de controvérsia sobre a mecânica mastigatória dos hadrossaurídeos, que possuíam a bateria dental mais sofisticada de todos os dinossauros. O trabalho pioneiro demonstrou que técnicas de análise de desgaste, usadas com sucesso em mamíferos, podiam ser aplicadas com sucesso a dinossauros com décadas de diferença.
Physical evidence of predatory behavior in Tyrannosaurus rex
DePalma, R.A., Burnham, D.A., Martin, L.D., Rothschild, B.M. & Larson, P.L. · Proceedings of the National Academy of Sciences
DePalma et al. apresentam a prova mais definitiva já encontrada de predação ativa pelo T. rex: uma coroa dentária de tiranossaurídeo incrustada em um centro vertebral caudal articulado de hadrossaurídeo, circundada por crescimento ósseo curado. O contexto é crucial: a presença de tecido ósseo reativo ao redor do dente incrustado prova que o animal sobreviveu ao ataque e viveu por meses depois. Isso resolve uma das maiores controvérsias da paleontologia do século XX: T. rex era caçador ativo ou necrófago? Uma evidência de cura pós-trauma apenas é possível em um animal vivo no momento do ataque. O espécime provém da Formação Hell Creek do Dakota do Sul. Dois vértebras caudais fundidas mostram espinhos dorsais danos consistentes com um ataque lateral posterior de T. rex. O trabalho encerra a hipótese do necrófago obrigatório, embora não descarte oportunismo em carcaças.
Biostratinomic alterations of an Edmontosaurus 'mummy' reveal a pathway for soft tissue preservation without invoking 'exceptional conditions'
Drumheller, S.K., Boyd, C.A., Barnes, B.M.S. & Householder, M.L. · PLOS ONE
Drumheller et al. analisam um novo espécime de Edmontosaurus 'múmia' recentemente preparado e identificam marcas de alimentação por carnívoros no tecido mole preservado, os primeiros exemplos conhecidos de danos por carnívoros em tecido mole dinosauriano. O trabalho propõe um modelo mecanístico para a preservação de pele sem condições 'excepcionais': carniçagem incompleta permitiu que gases e fluidos de decomposição escapassem, possibilitando a desiccação do cadáver antes do soterramento. Este mecanismo ordinário explica por que o Edmontosaurus é tão frequentemente encontrado 'mumificado': não é necessária soterração rápida ou condições anaeróbicas — basta que o carcaça seque antes de ser totalmente consumida. O modelo tem implicações amplas para a tafonomia de dinossauros e explica a distribuição geográfica de 'múmias' em diferentes formações.
Osteohistological and taphonomic life-history assessment of Edmontosaurus annectens (Ornithischia: Hadrosauridae) from the Late Cretaceous (Maastrichtian) Ruth Mason dinosaur quarry, South Dakota, United States, with implication for ontogenetic segregation between juvenile and adult hadrosaurids
Wosik, M. & Evans, D.C. · Journal of Anatomy
Wosik e Evans analisam o depósito monodominante de E. annectens da Pedreira Ruth Mason (Formação Hell Creek, Dakota do Sul), um depósito catastrófico com múltiplos indivíduos, usando histologia óssea e distribuições de tamanho-frequência para reconstruir a dinâmica populacional. Cinco coortes ontogenéticas são identificadas, de juvenis com 2 anos a adultos com mais de 18 anos. A análise da curva de crescimento indica que E. annectens atingia 95% da massa corporal assintótica por volta dos 9 anos, similar ao hadrossaurídeo Campaniano Maiasaura mas com tamanho adulto final muito maior. A ausência de ninhegos e animais de um ano na amostra fornece suporte para a segregação ontogenética: juvenis viviam separados dos adultos durante certos estágios do ciclo de vida. Este comportamento, análogo ao 'caribu de duas velocidades', tem implicações para a ecologia das manadas de hadrossaurídeos e para a interpretação de depósitos monodomínicos.
Over 13,000 elements from a single bonebed help elucidate disarticulation and transport of an Edmontosaurus thanatocoenosis
Snyder, K., McLain, M., Wood, J. & Chadwick, A. · PLOS ONE
Snyder et al. descrevem a extraordinária Pedreira Hanson Ranch na Formação Lance do Wyoming, que produziu mais de 13.000 elementos fósseis predominantemente de Edmontosaurus annectens ao longo de 25 anos de escavação. Apesar da preservação excepcional com mínima abrasão ou intemperismo, os ossos estão completamente desarticulados. A análise revela que o 'peneiramento hidráulico' removeu as seções articuladas antes ou simultaneamente ao transporte dos ossos restantes por fluxo de detritos subaquático. A distribuição seletiva de elementos — púbis, ísquios, escápulas e ossos longos abundantes; vértebras, ílios e chevrons raros — reflete mecânicas de transporte preferenciais comuns em depósitos hadrossaurídeos do Cretáceo superior em todo o mundo. O estudo demonstra como um único depósito monodominante pode revelar comportamento gregário e estrutura populacional de Edmontosaurus.
Complex dental structure and wear biomechanics in hadrosaurid dinosaurs
Erickson, G.M., Krick, B.A., Hamilton, M., Bourne, G.R., Norell, M.A., Lilleodden, E. & Sawyer, W.G. · Science
Erickson et al. revelam que a bateria dental dos hadrossaurídeos, incluindo o Edmontosaurus, é mais complexa do que qualquer dente de mamífero vivo. Análise histológica e micromecânica identifica seis tipos distintos de tecido dental — esmalte, dentina, tecido osteodentinal, cemento, tecido de suporte e tecido de ligamento — com durezas diferenciais entre os tecidos que criam um mecanismo de auto-afiação durante o desgaste. Conforme o dente se desgasta, os tecidos mais moles erodem mais rápido, mantendo bordas cortantes no esmalte mais duro. Este sistema supera em eficiência qualquer mecanismo de trituração de mamífero. Os autores estimam que uma bateria dental de Edmontosaurus podia processar 40% mais material vegetal por ciclo mastigatório do que um cavalo moderno. O trabalho redefine os hadrossaurídeos como os herbívoros terrestres mais eficientes já existentes, explicando seu extraordinário sucesso evolutivo no Cretáceo tardio.
Re-examination of the cranial osteology of the Arctic Alaskan hadrosaurine with implications for its taxonomic status
Chiarenza, A.A., Fiorillo, A.R., Tykoski, R.S., McCarthy, P.J., Flaig, P.P. & Contreras, D.L. · PLOS ONE
Chiarenza et al. reexaminam a osteologia craniana do hadrossaurídeo ártico do Alasca da Formação Prince Creek, reatribuindo-o ao gênero Edmontosaurus e encerrando décadas de debate sobre se os hadrossaurídeos do Ártico eram visitantes migratórios sazonais ou residentes permanentes. O material, coletado acima do Círculo Ártico (latitude paleogeográfica ~80°N no Maastrichtiano), mostra características cranianas diagnósticas de Edmontosaurus. A presença de filhotes e juvenis na Formação Prince Creek sugere reprodução local, o que por sua vez implica residência permanente. Se Edmontosaurus vivia permanentemente no Ártico, ele precisava sobreviver a meses de escuridão polar e temperaturas bem abaixo de zero, com metabolismo endotérmico capaz de manter temperatura corporal nessas condições. O trabalho transforma a imagem do Edmontosaurus de 'caribu cretáceo' migratório para residente polar permanente com fisiologia robusta.
Molecular phylogenetics of Mastodon and Tyrannosaurus rex
Organ, C.L., Schweitzer, M.H., Zheng, W., Freimark, L.M., Cantley, L.C. & Asara, J.M. · Science
Embora focado no T. rex, este trabalho de Organ et al. usa as mesmas técnicas de preservação molecular aplicadas à 'múmia' de Edmontosaurus para posicionar dinossauros na filogenia molecular. Colágeno extraído de osso de T. rex é comparado com sequências de 21 táxons vivos, confirmando a posição filogenética dos dinossauros não-aviários mais próximos das aves do que de qualquer outro grupo. O trabalho é diretamente relevante para Edmontosaurus porque usa dados moleculares do mesmo tipo de espécime 'mumificado' e demonstra que a preservação de biomoléculas em dinossauros do Cretáceo é cientificamente válida. Os resultados corroboram com sequências modernas a posição de Ornithischia como grupo-irmão de Saurischia, e de todos os dinossauros como arcossauros mais próximos das aves. O estudo abriu caminho para paleoproteômica de hadrossaurídeos e pavimentou o campo para análises subsequentes de biomoléculas em espécimes de Edmontosaurus.
Hadrosaurid migration: inferences based on stable isotope comparisons among Late Cretaceous dinosaur localities
Fricke, H.C., Rogers, R.R. & Gates, T.A. · Paleobiology
Fricke, Rogers e Gates analisam isótopos estáveis de carbono e oxigênio no esmalte dentário de Edmontosaurus e outros hadrossaurídeos de múltiplas localidades do Cretáceo tardio para inferir padrões migratórios sazonais. Indivíduos de localidades de latitude baixa (locais de invernada) e alta latitude (locais de alimentação de verão) mostram assinaturas isotópicas consistentes com migração de centenas de quilômetros. O modelo do 'caribu cretáceo', proposto para Edmontosaurus, é avaliado quantitativamente pela primeira vez com dados geoquímicos diretos. Os resultados são consistentes com migração sazonal, embora o debate sobre residência permanente no Ártico (discutido por Chiarenza et al., 2020) mostre que alguns grupos podiam ser residentes. O trabalho demonstra que a geoquímica isotópica é uma ferramenta poderosa para inferir comportamento migratatório em dinossauros extintos, pavimentando o caminho para estudos posteriores de paleoecologia.
Unusual lesions seen in the caudals of the hadrosaur, Edmontosaurus annectens
Anné, J., Watanabe, A., Cruzado-Caballero, P. & Norell, M.A. · The Anatomical Record
Anné et al. utilizam tomografia computadorizada para criar modelos 3D das vértebras caudais de espécimes de Edmontosaurus annectens e analisam lesões vertebrais incomuns. A distribuição e morfologia das lesões são mais consistentes com estresse biomecânico de longa duração causado por movimentos laterais e dorsoventrais da cauda, provavelmente relacionados com interações intraespecíficas e locomoção em indivíduos facultativamente quadrúpedes. As lesões diferem de marcas de mordida ou trauma agudo, sugerindo sobrecarga crônica das vértebras caudais durante a vida do animal. O estudo fornece janela única para o comportamento e biomecânica de locomoção de Edmontosaurus, complementando as análises de desgaste dental e histologia óssea. As lesões caudais podem indicar comportamento de luta intra-específica com uso da cauda como arma ou instrumento de comunicação social, comportamento observado em muitos herbívoros sociais modernos.
Espécimes famosos em museus
AMNH 5060 — A 'Múmia de Trachodon'
American Museum of Natural History, Nova York
O mais famoso espécime de Edmontosaurus e o primeiro dinossauro encontrado com pele preservada. Descoberto em 1908 próximo a Lusk, Wyoming, por Charles Sternberg e filhos, preservou escamas poligonais e a silhueta corporal do animal. Por décadas foi considerado 'pele fossilizada', mas pesquisas de 2025 revelaram que é uma máscara de argila formada durante a decomposição.
USNM 2414 — Holótipo
Smithsonian National Museum of Natural History, Washington D.C.
O holótipo da espécie, coletado por John Bell Hatcher na Formação Lance do Wyoming em 1891. Junto com o YPM 2182, foi um dos primeiros esqueletos completos de dinossauro montados nos Estados Unidos. O espécime permitiu a descrição original de Marsh em 1892 como Claosaurus annectens e permanece no Smithsonian como referência taxonômica primária.
DMNH 1943 — Espécime com mordida de T. rex
Denver Museum of Nature and Science, Denver
Espécime famoso por preservar evidência de um ataque de Tyrannosaurus rex que o animal sobreviveu: vértebras caudais com espinhos neurais danificados e osso curado ao redor das marcas de mordida. Kenneth Carpenter documentou as lesões em detalhe, e o espécime é referência central para estudos de comportamento predatório do T. rex.
No cinema e na cultura popular
O Edmontosaurus ocupa um lugar peculiar na cultura popular: é um dos dinossauros mais estudados pela ciência, mas permanece amplamente desconhecido do público em comparação com seus contemporâneos T. rex e Triceratops. Sua estreia no cinema remonta ao mudo de 1925, quando aparecia como 'Trachodon' em The Lost World. Em 1940, Disney o imortalizou na cena de extinção de Fantasia, onde um grupo de hadrossaurídeos perece no deserto em uma das sequências mais emotivas da história da animação. Décadas depois, March of the Dinosaurs (2011) trouxe a espécie ao centro da narrativa como protagonista de uma odisseia migratória pelo Ártico. A série Prehistoric Planet (Apple TV+, 2022) ofereceu a representação mais precisa já feita: o animal com comportamento de manada, postura subunguligrada e interação com T. rex baseada em pesquisas reais. Ao longo de um século de cinema, o Edmontosaurus passou de réptil lento e arrastado a herbívoro ágil, social e polar. A descoberta de 2025 sobre cascos e cristas dorsal carnuda certamente transformará ainda mais sua imagem nas próximas produções.
Classificação
Descoberta
Curiosidade
A 'múmia' AMNH 5060 foi tão bem preservada que os pesquisadores conseguiram medir a circunferência real do pescoço e dos membros do animal. Os cálculos mostraram que o Edmontosaurus vivo era muito mais magro do que se imaginava: com musculatura muito menos desenvolvida do que os lagartos gigantes que serviam de modelo para os artistas da época.