Mamenchisaurus constructus
Mamenchisaurus constructus
"Lagarto da travessia do cavalo"
Sobre esta espécie
O Mamenchisaurus constructus é o dinossauro que detém, proporcionalmente, o pescoço mais longo de qualquer animal conhecido. Descoberto em 1952 durante obras de uma estrada na Província de Sichuan, China, e descrito em 1954 pelo paleontólogo C. C. Young, este gigante do Jurássico Superior pertencia à família Mamenchisauridae, um grupo exclusivamente asiático de saurópodes de pescoço extraordinário. Com comprimento total estimado entre 21 e 26 metros e peso de até 15 toneladas, vivia em florestas subtropicais úmidas banhadas por rios e lagos rasos. Seu pescoço, que podia atingir mais de 9 metros de comprimento, era sustentado por vértebras cervicais altamente pneumatizadas, estruturalmente semelhantes a favo de mel, que reduziam o peso sem comprometer a resistência.
Formação geológica e ambiente
A Formação Shangshaximiao (também chamada Formação Shaximiao Superior) é uma sequência de rochas sedimentares do Jurássico Superior depositadas na Bacia de Sichuan, sudoeste da China. É composta principalmente por arenitos, siltitos e argilitos de origem fluvio-lacustre, depositados em planícies aluviais atravessadas por rios e lagos rasos de clima subtropical. A formação é mundialmente famosa por sua riqueza em dinossauros: é conhecida como a 'Fauna de Mamenchisaurus', com múltiplos saurópodes (Mamenchisaurus hochuanensis, Omeisaurus changshouensis), estegossauros (Tuojiangosaurus, Chungkingosaurus) e o grande terópode Yangchuanosaurus shangyouensis. A madeira fossilizada abundante indica a presença de florestas densas no paleoambiente.
Galeria de imagens
Montagem esquelética de Mamenchisaurus hochuanensis no Museu Paleozoológico da China, Beijing. Esta montagem do espécime CCG V 20401 é a mais famosa do gênero e reflete décadas de pesquisa sobre a anatomia do animal.
Jonathan Chen (BleachedRice) — CC BY-SA 4.0
Ecologia e comportamento
Habitat
Mamenchisaurus constructus habitava as planícies aluviais e margens florestadas de rios e lagos rasos da Bacia de Sichuan durante o Oxfordiano, há cerca de 161–155 milhões de anos. A Formação Shangshaximiao preserva depósitos fluvio-lacustres com madeira fossilizada, indicando presença de florestas subtropicais densas. O clima era quente e sazonal, com períodos úmidos que enchiam os lagos e períodos de seca que concentravam a fauna em torno das fontes de água. O ecossistema era compartilhado com o terópode Yangchuanosaurus (o principal predador da região), os estegossauros Tuojiangosaurus e Chungkingosaurus, e outros saurópodes como Omeisaurus.
Alimentação
Com base na análise biomecânica de Christian et al. (2013) sobre M. youngi, o pescoço de Mamenchisaurus era mantido em postura aproximadamente horizontal, o que sugere estratégia de forrageamento em arco lateral amplo ao nível do solo e a alturas médias. Os dentes em forma de colher eram adaptados para cisalhar vegetação suculenta, incluindo samambaias, cicadáceas e crescimentos de margem de lago, sem mastigação extensiva. O alimento era engolido inteiro e processado por pedras gástricas (gastrólitos) no estômago. O pescoço hiperlongo permitia ao animal varrer grandes áreas de vegetação sem se deslocar, minimizando o custo energético de locomoção para um animal de 13 toneladas.
Comportamento e sentidos
O comportamento social de Mamenchisaurus é inferido por analogia com grandes herbívoros modernos e com evidências icnológicas (pistas fósseis) do Jurássico Superior da Ásia. Depósitos fossilíferos com múltiplos indivíduos do gênero sugerem comportamento gregário, pelo menos em torno de fontes de água. O grande porte corporal conferia proteção contra predadores: adultos de 13 toneladas estavam provavelmente fora do alcance de Yangchuanosaurus, que pesava entre 1 e 3 toneladas. Filhotes e juvenis eram vulneráveis e provavelmente se agrupavam no centro das manadas. Não há evidência de comportamento de nidificação específico, mas por analogia com outros saurópodes, Mamenchisaurus provavelmente depositava ovos em ninhos simples e não prestava cuidado parental prolongado.
Fisiologia e crescimento
A histologia óssea de mamenchissaurídeos (Griebeler et al. 2013) documenta tecido ósseo fibrolamellar altamente vascularizado, indicativo de metabolismo endotérmico e crescimento rápido em fases juvenis. A pneumatização vertebral extrema — vértebras com 69–77% de volume em ar em M. sinocanadorum (Moore et al. 2023) — é funcionalmente homóloga ao sistema de sacos aéreos das aves, implicando sistema respiratório de fluxo unidirecional de alta eficiência. Este sistema respiratório aviário possivelmente contribuía para termorregulação e metabolismo de alta performance. Estima-se que M. constructus, com ~13.000 kg, ingeria centenas de quilogramas de vegetação por dia. O coração devia ser excepcionalmente potente para elevar o sangue à cabeça mesmo quando o pescoço era mantido horizontalmente.
Paleogeografia
Configuração continental
Ron Blakey · CC BY 3.0 · Jurássico, ~90 Ma
Durante o Oxfordiano (~161–155 Ma), Mamenchisaurus constructus habitava a Pangeia em processo de fragmentação. A América do Norte e a Europa ainda estavam próximas, e o Atlântico Norte mal começava a se abrir. O clima era quente e úmido em escala global, sem calotas polares.
Inventário de Ossos
O holótipo IVPP V. 790 é fragmentário: preserva cinco vértebras dorsais, 30 vértebras caudais, 14 vértebras cervicais incompletas, fragmentos de costelas, espinhos neurais e ossos do membro posterior (fêmur parcial, tíbia, fíbula, astrágalo, metatarsos). Crânio, membros anteriores e cintura pélvica estão ausentes. Espécimes referidos de M. hochuanensis e M. youngi fornecem informações anatômicas complementares sobre o gênero.
Estruturas encontradas
Estruturas inferidas
Literatura Científica
15 artigos em ordem cronológica — do artigo de descrição original até pesquisas recentes.
On a new sauropod from Yiping, Lufeng, Yunnan
Young, C.C. · Acta Palaeontologica Sinica
Trabalho fundador que estabelece o gênero Mamenchisaurus e a espécie-tipo M. constructus. C. C. Young (Yang Zhongjian) descreve o holótipo IVPP V. 790, coletado por trabalhadores da construção da estrada Yitang em Sichuan em 1952. O material, fragmentário e não coletado de forma técnica, inclui vértebras cervicais, dorsais e caudais, fragmentos de costelas e ossos do membro posterior. Young nota a extrema elongação das vértebras cervicais, característica que distingue o gênero de todos os saurópodes então conhecidos da Ásia. Compara o material com Diplodocidae em virtude dos chevrons bifurcados, mas reconhece sua posição taxonômica incerta. O nome do gênero resulta de um equívoco de transcrição: o local de descoberta é o vau de Mǎmíngxī, mas Young registrou como Mǎménxī, gerando o nome Mamenchisaurus. Este artigo é o ponto de partida obrigatório para qualquer estudo do gênero e de toda a família Mamenchisauridae, que foi formalmente erguida em 1972.
Mamenchisaurus hochuanensis sp. nov.
Young, C.C. & Zhao, X. · Institute of Vertebrate Paleontology and Paleoanthropology Monographs, Series A
Monografia que descreve M. hochuanensis, espécie muito mais completa que o holótipo de M. constructus. O espécime CCG V 20401, proveniente de Hechuan, preserva 19 vértebras cervicais elongadas quase intactas, coluna vertebral quase completa, membros e elementos pélvicos, permitindo pela primeira vez uma descrição anatômica abrangente do gênero. Young & Zhao estimam o comprimento total em 22 metros, com o pescoço representando cerca de 10 metros, e erigem formalmente a família Mamenchisauridae. O trabalho documenta as características-diagnóstico do grupo: vértebras cervicais extremamente longas e pneumáticas, espinhos neurais posteriores bifurcados e posição filogenética distinta dos saurópodes ocidentais. Moldes do espécime estão expostos hoje no Field Museum de Chicago. Este trabalho transformou Mamenchisaurus no saurópode asiático mais conhecido e estabeleceu a base anatômica para todas as comparações filogenéticas subsequentes.
A new species of sauropod from Zigong, Sichuan: Mamenchisaurus youngi
Pi, L., Ou, Y. & Ye, Y. · Geoscience (Contributions to the 30th International Geological Congress)
Artigo que descreve M. youngi, a única espécie de Mamenchisaurus com crânio conhecido, proveniente de Zigong, Sichuan. A descoberta do crânio foi revolucionária para a compreensão do gênero: mostrou que Mamenchisaurus possuía uma cabeça pequena e leve em relação ao corpo, com narinas recuadas e dentes em forma de colher adaptados ao consumo de vegetação suculenta. O esqueleto pós-craniano articulado permitiu estimar o comprimento total em cerca de 16 metros para esse espécime. A monografia completa, publicada separadamente (1996, Sichuan Science and Technology Press), tornou-se a referência anatômica padrão para o gênero. A pneumatização das vértebras cervicais foi documentada em detalhe, demonstrando como o animal sustentava seu pescoço desproporcional: os ossos eram internamente ocos como favos de mel, reduzindo a massa sem sacrificar a resistência estrutural.
A large mamenchisaurid from the Junggar Basin, Xinjiang, People's Republic of China
Russell, D.A. & Zheng, Z. · Canadian Journal of Earth Sciences
Russell & Zheng descrevem M. sinocanadorum, coletado na Bacia de Junggar (Xinjiang) durante uma expedição sino-canadense. O espécime inclui fragmentos cranianos e vértebras cervicais parciais cuja estrutura interna Russell & Zheng comparam a um favo de mel, com tubos pneumáticos longitudinais de 13–15 mm de diâmetro. Com base no tamanho das vértebras, os autores estimam que o animal devia ser excepcionalmente grande. A espécie ficou relativamente obscura até 2023, quando Moore et al. revisaram o espécime com tomografia computadorizada e determinaram que seu pescoço media aproximadamente 15 metros, o maior de qualquer animal conhecido. O trabalho de Russell & Zheng estabeleceu a base para compreender a distribuição geográfica mais ampla dos mamenchissaurídeos além de Sichuan e documentou pela primeira vez a pneumatização camellate das vértebras cervicais em detalhe.
The phylogenetic relationships of sauropod dinosaurs
Upchurch, P. · Zoological Journal of the Linnean Society
Upchurch realiza a análise filogenética mais abrangente publicada até então para Sauropoda, com 219 caracteres e 28 táxons, e posiciona formalmente Mamenchisauridae como família monofilética de eusaurópodes basais, claramente separada de Neosauropoda. O trabalho documenta os synapomorfias do grupo: vértebras cervicais com proporção comprimento/altura excepcionalmente elevada, pleurocelos cervicais profundos e espinhos neurais posteriores bifurcados. A análise corrobora a hipótese de que os mamenchissaurídeos formavam uma fauna saurópode endêmica na Ásia Oriental, isolada da fauna ocidental da Laurásia durante o Jurássico Superior — possivelmente por barreiras marinhas ou continentais. Este trabalho é hoje uma referência clássica para a sistemática dos saurópodes e influenciou todas as análises filogenéticas subsequentes do grupo.
A new sauropod dinosaur from the Late Jurassic of China and the diversity, distribution, and relationships of mamenchisaurids
Xing, L. et al. · Journal of Vertebrate Paleontology
Xing et al. descrevem Qijianglong guokr, novo mamenchissaurídeo do Jurássico Superior de Chongqing, com crânio quase completo e coluna articulada. A análise filogenética inclui Mamenchisaurus constructus e posiciona Qijianglong como mamenchissaurídeo plesiomórfico. O trabalho documenta que os mamenchissaurídeos formavam uma fauna saurópode endêmica na Ásia Oriental durante o Jurássico Superior, claramente distinta das faunas contemporâneas da Europa, América do Norte e América do Sul. Esta biogeografia pode refletir o isolamento da Ásia Oriental por barreiras marinhas no final do Jurássico. O artigo fornece a análise filogenética mais detalhada do clado até aquela data, com discussão dos caracteres que unem e separam os diferentes gêneros de mamenchissaurídeos, e torna-se referência para qualquer estudo posterior sobre Mamenchisaurus constructus e seus parentes.
Biomechanical Reconstructions and Selective Advantages of Neck Poses and Feeding Strategies of Sauropods with the Example of Mamenchisaurus youngi
Christian, A., Peng, G., Sekiya, T., Ye, Y., Wulf, M.G. & Steuer, T. · PLOS ONE
Christian et al. aplicam modelagem biomecânica à espécie mais bem documentada do gênero, M. youngi, para determinar a postura natural do pescoço e a estratégia de alimentação. Usando análise de elementos finitos para calcular o estresse nas cartilagens intervertebrais e medições das faces articulares das zigapófises (as articulações entre as vértebras), os autores determinam que o pescoço de Mamenchisaurus na postura osteologicamente neutra era quase horizontal. A amplitude máxima de movimento vertical é limitada pelas articulações: o animal não conseguia erguer o pescoço em um ângulo de girafa. Isso implica que a estratégia de alimentação era um arco horizontal amplo, varrendo vegetação rente ao chão e em alturas médias sem se deslocar muito. A hiperlongitudez não seria adaptação para alcançar copas de árvores altas, mas para maximizar a área de forrageamento sem gastar energia em deslocamento. Este é o estudo biomecânico mais completo já publicado especificamente sobre Mamenchisaurus.
Why sauropods had long necks; and why giraffes have short necks
Taylor, M.P. & Wedel, M.J. · PeerJ
Taylor & Wedel revisam sistematicamente todos os fatores anatômicos e fisiológicos que permitiram aos saurópodes evoluir pescoços até seis vezes mais longos do que o do recorde mundial de girafas. Mamenchisaurus é citado repetidamente como exemplo de elongação cervical extrema. Os autores identificam seis pré-requisitos necessários e suficientes para o pescoço hiperlongo: (1) corpo grande e quadrúpede como plataforma estável; (2) cabeça pequena sem mastigação extensiva; (3) vértebras cervicais numerosas e individualmente longas; (4) sistema respiratório de saco aéreo altamente eficiente; (5) arquitetura cervical com pneumatização extensa; (6) pressão seletiva para aumentar o envelope de forrageamento. A combinação de todos esses fatores é exclusiva dos saurópodes: nenhum outro grupo de vertebrados terrestres reuniu todas essas condições. O trabalho explica por que Mamenchisaurus pôde ir muito além dos limites de qualquer outro animal terrestre e é hoje referência obrigatória sobre a biologia dos pescoços de saurópodes.
Aging, Maturation and Growth of Sauropodomorph Dinosaurs as Deduced from Growth Curves Using Long Bone Histological Data
Griebeler, E.M., Klein, N. & Sander, P.M. · PLOS ONE
Griebeler et al. constroem curvas de crescimento a partir de histologia de ossos longos para sete indivíduos de sauropodomorpha, incluindo especificamente um mamenchissaurídeo indeterminado de grande porte (húmero SGP 2006/9, com 16 anéis de crescimento) que representa um dos maiores indivíduos conhecidos do grupo. As linhas de crescimento interrompido (LAGs) permitem estimar a idade ao morrer, a idade de maturidade sexual e as taxas máximas de crescimento. Os resultados mostram que os sauropodomorphos atingiam o tamanho máximo em intervalos de tempo comparáveis aos de grandes herbívoros modernos em escala ampliada. O mamenchissaurídeo analisado apresenta 16 anéis de crescimento — indicando um indivíduo longevo — e tecido ósseo fibrolamellar altamente vascularizado, consistente com metabolismo endotérmico (de sangue quente) e crescimento rápido em fases juvenis. Este é o trabalho histológico mais diretamente relevante para entender o crescimento e a fisiologia de Mamenchisaurus.
A new specimen of Mamenchisaurus hochuanensis from the Upper Jurassic Shangshaximiao Formation of Zigong, Sichuan, China
Moore, A.J., Hemming, A. & Bhullar, B.A. · PeerJ
Moore et al. descrevem um novo espécime de M. hochuanensis (ZDM0126) de Zigong, Sichuan, descoberto em 1995, que preserva crânio, cintura peitoral e membros anteriores ausentes no holótipo CCG V 20401. Pela primeira vez, a anatomia completa de M. hochuanensis pode ser documentada. A análise cladística utilizando todos os elementos esqueléticos conhecidos recupera Mamenchisaurus como um grau parafilético de mamenchissaurídeos basais — resultado com implicações importantes para a taxonomia do gênero: as diferentes 'espécies' de Mamenchisaurus podem não formar um grupo natural. O crânio preservado em ZDM0126 exibe características diagnósticas importantes e confirma a morfologia robusta da caixa craniana com narinas recuadas. Este trabalho representa a análise anatômica mais completa da espécie mais bem documentada do gênero e é a referência moderna padrão para M. hochuanensis.
Re-assessment of the Late Jurassic eusauropod Mamenchisaurus sinocanadorum Russell and Zheng, 1993, and the evolution of exceptionally long necks in mamenchisaurids
Moore, A.J., Barrett, P.M., Upchurch, P., Liao, C.C., Ye, Y., Hao, B. & Xu, X. · Journal of Systematic Palaeontology
Moore et al. revisam M. sinocanadorum usando tomografia computadorizada e determinam que as vértebras cervicais tinham 69–77% de seu volume composto por ar — pneumatização comparável à dos maiores saurópodes conhecidos. Análise de escalonamento atualizada indica que o pescoço media ao menos 14 metros, possivelmente 15,1 metros — o maior de qualquer animal conhecido com segurança. A análise filogenética posiciona M. sinocanadorum entre os mamenchissaurídeos derivados. Os autores discutem como a evolução do pescoço hiperlongo em mamenchissaurídeos envolveu três mecanismos combinados: aumento no número de vértebras cervicais, elongação individual de cada vértebra e pneumatização progressiva para reduzir massa. M. constructus, com pescoço estimado em 9 metros, representa um nível intermediário nesta gradação evolutiva. O trabalho estabelece definitivamente que mamenchissaurídeos são os animais terrestres com pescoço mais longo da história da vida na Terra.
A new mamenchisaurid sauropod dinosaur from the Upper Jurassic of Southwest China reveals new evolutionary evidence from East Asian eusauropods
Dai, H., Hu, X.F., Tan, C., Ren, X.X., Ma, Q.Y., Wei, G.B. & You, H.L. · Scientific Reports
Dai et al. descrevem Mamenchisaurus sanjiangensis, novo mamenchissaurídeo do Oxfordiano inicial de Chongqing, cronologicamente próximo ao horizonte de M. constructus. O espécime exibe convergências morfológicas surpreendentes com neossaurópodes — grupo não relacionado de saurópodes mais avançados — incluindo feições do pescoço e da caixa torácica que evoluíram independentemente nos dois grupos. Os autores interpretam esse paralelismo como evidência de que mamenchissaurídeos desenvolveram estratégias ecológicas específicas para manter sua dominância na Ásia Oriental, possivelmente em competição com neossaurópodes imigrantes. A análise filogenética é a mais detalhada já realizada para o grupo no estado da arte, posicionando M. sanjiangensis como mamenchissaurídeo derivado e fornecendo o contexto evolutivo mais atual para interpretar a posição de M. constructus dentro da família.
Vertebral pneumaticity, air sacs, and the physiology of sauropod dinosaurs
Wedel, M.J. · Paleobiology
Wedel realiza a primeira revisão sistemática abrangente da pneumatização vertebral em saurópodes, incluindo análise específica de Mamenchisaurus. A pneumatização — cavidades de ar dentro dos ossos — é documentada como homóloga aos sacos aéreos das aves modernas, o que implica um sistema respiratório de fluxo unidirecional altamente eficiente, semelhante ao das aves. Para Mamenchisaurus, a pneumatização cervical abordada se aproxima do máximo conhecido para qualquer animal: as vértebras eram compostas em sua maioria por ar. Wedel demonstra que sem esse sistema de pneumatização, o pescoço de Mamenchisaurus seria biologicamente impossível: ele seria pesado demais para ser sustentado pela musculatura cervical disponível. O sistema de sacos aéreos também contribuía para a termorregulação e para o metabolismo de alta performance necessário ao crescimento rápido desses gigantes.
Re-examination of Chuanjiesaurus anaensis (Dinosauria: Sauropoda) from the Middle Jurassic Chuanjie Formation, Lufeng County, Yunnan Province, Southwest China
Sekiya, T. · Memoir of the Fukui Prefectural Dinosaur Museum
Sekiya realiza a reexaminação sistemática de Chuanjiesaurus anaensis, mamenchissaurídeo do Jurássico Médio de Yunnan, e apresenta análise filogenética que posiciona o táxon como mamenchissaurídeo basal. A importância central deste trabalho para M. constructus é que ele inclui a espécie-tipo na análise filogenética e pontua seus caracteres de forma independente, algo raro dado o caráter fragmentário do holótipo IVPP V. 790. Os resultados esclarecem a história evolutiva inicial da família e sua divergência de outras linhagens de eussaurópodes. A análise também documenta que os mamenchissaurídeos têm suas raízes no Jurássico Médio, com divergências antes do período mais tardio representado por M. constructus (Oxfordiano). Este é um dos poucos trabalhos que trata M. constructus como objeto de análise filogenética formal, em vez de meramente referenciá-lo.
A new mamenchisaurid from the Upper Jurassic Suining Formation of the Sichuan Basin in China and its implication on sauropod gigantism
Wei, X., Tan, Y., Jiang, S., Ding, J., Li, L., Wang, X., Liu, Y., Wei, G., Li, D., Liu, Y., Peng, G., Zhang, S. & Lao, C. · Scientific Reports
Wei et al. descrevem Tongnanlong zhimingi, novo mamenchissaurídeo gigante do Jurássico Superior da Bacia de Sichuan, com comprimento estimado em 25–26 metros — entre os maiores mamenchissaurídeos conhecidos. A análise filogenética posiciona o novo táxon mais próximo de Mamenchisaurus do que de Omeisaurus, corroborando a monofilia de um clado de mamenchissaurídeos derivados que inclui o gênero Mamenchisaurus. A descoberta demonstra que o gigantismo extremo evoluiu múltiplas vezes dentro de Mamenchisauridae e que a Bacia de Sichuan — o mesmo ambiente que produziu M. constructus — foi um centro de diversidade e gigantismo de saurópodes durante o Jurássico Superior. O trabalho contribui para o entendimento dos mecanismos evolutivos do gigantismo em saurópodes e fornece dados comparativos importantes para a espécie-tipo M. constructus.
Espécimes famosos em museus
IVPP V. 790 (holótipo de M. constructus)
Instituto de Paleontologia de Vertebrados e Paleoantropologia (IVPP), Beijing, China
Holótipo da espécie-tipo M. constructus. Material fragmentário incluindo vértebras dorsais e caudais, partes de vértebras cervicais, fragmentos de costelas e ossos do membro posterior. A ausência do crânio e dos membros anteriores torna este o espécime menos informativo do gênero, mas seu valor nomenclatural é insubstituível.
CCG V 20401 (holótipo de M. hochuanensis)
Museu de Dinossauros de Zigong, Sichuan, China (moldes no Field Museum, Chicago, EUA)
Espécime mais importante do gênero. Preserva 19 vértebras cervicais quase completas, 12 dorsais, 4 sacrais e 35 caudais, além de elementos dos membros. Base anatômica de referência para todos os estudos do gênero. Moldes expostos no Field Museum de Chicago e em diversos museus chineses.
ZDM0126 (M. hochuanensis, espécime com crânio)
Museu de Dinossauros de Zigong, Sichuan, China
Espécime descoberto acidentalmente durante obras em Zigong em 1995. Preserva crânio completo, cintura peitoral e membros anteriores ausentes no holótipo. Descrito por Moore et al. (2020), é o espécime mais completo do gênero e o único de M. hochuanensis com crânio preservado in situ.
No cinema e na cultura popular
Mamenchisaurus chegou ao cinema de forma silenciosa mas impactante: em The Lost World: Jurassic Park (1997), Steven Spielberg usou o gênero como peça de espetáculo visual, com dois indivíduos de pescoço hiperlongo misturados ao rebanho de herbívoros no terceiro ato. O marketing do filme foi ainda mais ousado: uma réplica de 21 metros do animal foi exibida em Los Angeles durante o lançamento. Na televisão, a BBC imortalizou o gênero em Walking with Dinosaurs (1999), o documentário mais assistido sobre paleontologia da história. A crescente precisão científica nas produções ao longo das décadas é notável: em Dinosaur Revolution (2011), o comportamento do animal já era mais nuançado. Em Jurassic World Dominion (2022), M. sinocanadorum aparece com proporções mais acuradas, refletindo pesquisas recentes. O fato de que 2023 trouxe simultaneamente a confirmação científica do pescoço mais longo da história e uma aparição em blockbuster de Hollywood revela como a fronteira entre ciência e cultura pop, no caso de Mamenchisaurus, é particularmente tênue.
Classificação
Descoberta
Curiosidade
O nome Mamenchisaurus nasceu de um erro: o paleontólogo C. C. Young confundiu dois caracteres chineses ao transcrever o nome do local de descoberta. O lugar se chama Mǎmíngxī (马鸣溪, 'riacho do cavalo que relincha'), mas Young anotou como Mǎménxī (马门溪, 'riacho do portão do cavalo'), gerando o nome que ficou para sempre. O 'lagarto do riacho do portão do cavalo' que dominou por décadas os livros de paleontologia devia seu nome a uma confusão de caligrafia.